
A pauta convergente na área da saúde, na atualidade, mobilizadora de esforços integrados entre Ministério da Saúde (MS) e Ministério da Educação (ME), diz respeito às políticas públicas que focalizam a reorientação do modelo assistencial, conforme preconizado pela Reforma Sanitária. A consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) depende tanto do sucesso de estratégias como o Programa de Saúde da Família (PSF) e da implementação de processos de Educação Permanente (EP), de competência do MS, quanto da revitalização dos Projetos Pedagógicos (PP) dos cursos de graduação, incorporando as premissas da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), conforme estabelecem as Diretrizes Curriculares (DC), atribuições da alçada do ME.
Para tanto, é urgente que se estabeleça uma nova relação entre os profissionais de saúde [...] diferentemente do modelo biomédico tradicional, permitindo maior diversidade das ações e busca permanente do consenso. Tal relação, baseada na interdisciplinaridade e não mais na multidisciplinaridade [...] requer uma abordagem que questione as certezas profissionais e estimule a permanente comunicação horizontal entre os componentes de uma equipe. (Costa Neto, 2000, p.9)
Assim, a interdisciplinaridade constitui um entre os vários temas que necessitam serem desenvolvidos para gerarem contribuição para a pauta da área da saúde, pois entendemos que o contexto histórico vivido nessa virada de milênio, caracterizado pela divisão do trabalho intelectual, fragmentação do conhecimento e pela excessiva predominância das especializações, demanda a retomada do antigo conceito de interdisciplinaridade que, no longo percurso do século passado, foi sufocado pela racionalidade da revolução industrial.
Na perspectiva contemporânea na qual este texto se insere, a interdisciplinaridade contempla: o reconhecimento da complexidade crescente do objeto das ciências da saúde e a conseqüente exigência interna de um olhar plural; a possibilidade de trabalho conjunto, que respeita as bases disciplinares específicas, mas busca soluções compartilhadas para os problemas das pessoas e das instituições; o investimento como estratégia para a concretização da integralidade das ações de saúde.
A competência para “trabalhar em conjunto com outros profissionais da área de saúde”, ou seja, de modo interdisciplinar (Almeida & Maranhão, 2003). Interdisciplinaridade tem sido objeto constante de discussão quando se aborda as ciências da saúde. Embora a palavra tenha recebido tratamento sistemático, pouco se tem categorizado o que se pretende dizer sobre ela.
Japiassú (1976) levantou a possibilidade desse neologismo tomar sentidos amplos e diversificados, com conseqüentes entendimentos e usos. Acreditamos que a polissemia que a interdisciplinaridade desperta pode ser entendida, pelo menos parcialmente, na medida em que seu significado se recorta ao interior do objeto específico que se pretende investigar ou enfrentar. Por exemplo, num sentido amplo poderíamos qualificar a Bioquímica como um produto de uma relação interdisciplinar entre a Biologia e a Química, originando uma nova disciplina. Outro poderia indicar que Educação em Saúde é uma área do conhecimento articulada interdisciplinarmente entre os pressupostos da Saúde
Coletiva e a Educação Construtivista. Estes exemplos já tendem a dimensionar o problema das multifaces da categoria.
Embora reconheçamos como legítimos, a partir de seus planos de incisão, os dois exemplos apresentados como possibilidades interdisciplinares, ocupar-nos com uma categorização um pouco mais pragmática no âmbito de práticas que envolvam os diferentes profissionais da área da saúde e suas conseqüências para o cotidiano das Unidades Básicas ou HOSPITALAR de Saúde; portanto chamaremos de interdisciplinaridade a relação articulada entre as diferentes profissões da saúde. Usando das categorias epistemológicas de Fleck (1986) pretendemos
qualificar as profissões como sendo diferentes Coletivos de Pensamento fundamentadas, cada qual, em seu Estilo de Pensamento, ou seja, num olhar estilizado que permeia um conjunto de regras para a abordagem e resolução de um problema, baseados numa formação específica e diferenciada com marco conceitual identificado. O que queremos dizer é que o médico, o enfermeiro, o odontólogo, o psicólogo, o fisioterapeuta ou qualquer outro profissional da saúde compõem distintos Coletivos de Pensamento e, conseqüentemente, constróem fatos novos diante de problemas comuns.
Mas, o que é interdisciplinaridade? Qual a diferença entre as terminologias, muitas vezes confundidas, como interdisciplinaridade, transdisciplinaridade, multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade? Achamos importante uma aproximação com estes conceitos, já que são usados muitas vezes como sinônimos ou com sentidos plurais. Longe de encerrar o significado com uma definição fechada, optamos pelas aproximações de Japiassú (1976) modificadas.
A multidisciplinaridade indica uma execução de disciplinas desprovidas de objetivos comuns sem que ocorra qualquer aproximação ou cooperação. Na pluridisciplinaridade haveria um núcleo comum, já aparecendo uma relação, com certo grau de colaboração, mas sem uma ordenação; haveria um toque, um tangenciamento entre as disciplinas. Estas duas terminologias são freqüentemente colocadas como sinônimos, o que necessariamente não se constituiria um erro. Rosenfield apud Perini et al. (2001) chama de multidisciplinar o que Japiassú (1976) chama de pluridisciplinar, ou seja, quando um problema comum é tratado de forma seqüencial ou paralela pordisciplinas específicas.
Ainda Rosenfield apud Perini et al. (2001) caracteriza a interdisciplinaridade como a possibilidade do trabalho conjunto na busca de soluções, respeitando-se as bases disciplinares específicas. Concluindo, referese à transdisciplinaridade como trabalho coletivo que compartilha “estruturas conceituais, construindo juntos, teorias, conceitos e abordagens para tratar problemas comuns” (Rosenfield apud Perini et al., 2001, p.103).
Neste caso a disciplina em si perde seu sentido e não há limites precisos nas identidades disciplinares. Numa relação pluridisciplinar um paciente com respirador bucal poderá primariamente ser atendido pelo médico. Uma vez diagnosticado poderá ser encaminhado ao otorrinolaringologista que, uma vez verificadas as condições do palato do paciente, o encaminha ao ordodontista e ao fonoaudiólogo. Como vemos, cada qual realiza seu trabalho separadamente,
sem cooperação direta. Numa perspectiva interdisciplinar a abordagem do problema seria vista conjuntamente, bem como a busca de soluções criativas para resolvê-lo.
Mas, o que é necessário para que a interdisciplinaridade se torne uma forma natural e solidária de trabalho, que ultrapasse as arrogâncias pessoais, a necessidade de exercer poder sobre os outros e a tradição de centralizar os profissionais, deslocando para a periferia do processo o sujeito que sofre por adoecimento, por falta de conhecimento ou energia para se cuidar, logo necessitando de atenção, assistência, informação? Esta foi a questão original deste estudo e para respondê-la, encontramos no Relatório Unesco, daComissão Internacional sobre Educação para o Século XXI (Delors, 1998), a base para propor um conjunto de saberes, conforme propõe o referidodocumento.


Nenhum comentário:
Postar um comentário